Vítima de um tumor, em 11 de maio de 1981, morria Bob Marley. Orfeu guerreiro, pastor da rebelião, um dos maiores compositores do reggae e o maior responsável pela popularização do ritmo jamaicano a nível mundial, Marley deixou um importante legado fonográfico. Desde sua morte o mundo do reggae espera um novo messias, alguém que possa restituir à música a importância que teve quando Marley e os Wailers sintetizaram nela a luta do Terceiro Mundo pela liberdade e expressão própria. Embora o reggae tenha produzido uma abundância de talentosos músicos, alguns deles, como Peter Tosh, ficaram no caminho. Outros como Sly Dunbar, Robbie Shakespeare, Judy Mowatt e Yoellow man, estimularam seguidores que refletem aspectos da fragmentação musical após a morte de Marley. Nascido em 6 de fevereiro de 1945, Bob Marley teve uma vida dura, passando maus bocados entre a violência policial e a miséria urbana. Sua libertação simbólica vinha através da música quente e embalada do Caribe: mambos, calipso, rumbas e do som negro norte americano, captado das estações de rádio de Miami e Nova Orleans, não muito longe dali. Já no final da década de 60, o som da Jamaica estava bem definido, as letras começavam a incluir temas sociais ligados à valorização da raça negra e à denúncia da violência policial e da opressão. JAMAICA: de Bob A primeira leva de africanos expedida pelos europeus para o Novo Mundo desambarcou em 1509. Em 1655 as tropas inglesas de Olive: Gromwel desembarcaram na ilha com o propósito de "tomar dos espanhóis os vastos territórios do Caribe".Os ingleses conquistaram facilmente o território com a ajuda dos africanos. A escravidão não conseguiu dominar a vontade de resistência dos africanos, cujas rebeliões marcaram a história da Jamaica. Os escravos que conseguiam escapar se refugiavam nas montanhas e ali se organizavam, de acordo os sistemas sociais, políticos e religiosos, análogos aos que haviam conhecido na África. Eles eram conhecios como maroons (quilombolas). Esses escravos lutavam contra os ingleses saqueando as plantações e semeando o terror contra os brancos. Os ingleses não conseguiram submetê-los e tiveram que assinar tratados de paz que garantiram aos negros o direito de permanecer em suas terras, sob a condição de que não abrigassem escravos fugidos. Em fins do século XVII os marrous foram finalmente aniquilados, mas apesar da situação adjeta da escravidão os africanos conseguiram manter muitos elementos da sua história cultural. Criaram um meio de comunicação através da invenção do patols, combinação do inglês e de línguas africanas. Compunham canções sobre a vida, inventaram jogos para a ocasião de festas no Natal, batiam tambores, vestiam roupas vistosas de inspiração africana e dançavam. As práticas religiosas permaneceram inalteradas, as religiões oficiais não queriam convertê-los. Mas a inspiração da Igreja Batista Etíope sob George Liele, o pastor afro-americano e antigo escravo, despertou o interesse dos negros por ser o ritual semelhante ao africano, por ser uma promesssa de redenção e salvação e também uma maneira de se livrarem da escravidão após a morte. Em 1860 a Jamaica viveu um período de "revitalização" religiosa centrada na paróquia de são Thomas, onde George William Gordon, pastor batista negro e mebro do conselho municipal, juntamente com Paul e Moses Bogle, não só tentaram realizar a chama religiosa, mas também contribuir pela maioria da justiça para os povos. Este movimento levou à religião de Morant Bay em 1865. Para sufocar a religião as autoridades recorreram à polícia britânica. Gordon e Paul Bogle foram mortos. A importância desse fato é que ele se originou, mais tarde, o Rastafari, fenômeno político-religioso. Nome pelo qual era conhecido o imperador Hailé Salassié, da Etiópia, antes de sua coroação em 1930. A história do Ras Tafari é inseparável da de Marcus Garvey, nascido na paróquia de Santa Ana e que muito cedo se interessou por melhorar as condições de vida dos pobres. Para isto Garvey montou nos Estados Unidos, em 1916, uma formidável organização para resolver problemas do negro não só nos Estados Unidos, mas também no mundo todo. Numa tentativa de minar sua influência, o governo americano semeou a discórdia e a inveja no movimento; Garvey foi preso e depois deportado por fraude, mas recompôs seu movimento na Jamaica. Neste momento disse: "Vejam a África, onde um rei negro será coroado, pois o dia da libertação está próximo". Seus seguidores, consultando a Bíblia, comprovaram essa declaração nas passagens sobre a Etiópia, onde existe uma história sobre o Leão de Judá, a Raiz de David. Quando Ras Tafari foi coroado em 1930, ressuscitou o título antigo: "Leão: o conquistador de Judá", "Rei dos Reis", "Senhor dos Senhores", etc. Mas antes mesmo da coroação de Hailé Salassié, o onceito etiopiapanismo já havia contribuído muito para implantar na mente dos negros a idéia de que era um embuste histórico a afirmação européia de que os africanos em nada contribuiram para a cultura e a civilização ocidental. A rejeição à Bíblia tornou-se uma forma de criar novos sistemas religiosos inspirados nos da África ancestral. Religiosos negros da Afro-América, da África do Sul, da Antiqua e da própria Jamaica adotaram o conceito de etiopanismo e a filosofia de Garvey, escrevendo importantes obras que contribuíram significativamente para a sistematização do Rastafari. Em sua filosofia o movimento Rastafari era essencialmente anti-colonialista ou uma afirmação da história cultural e social africana. Oferecia alternativas político-religiosas e baseava-se na figura central da África, Hailé Salassié, homem divino por seu vínculo antestral com a união do Rei Salomão - Rainha de Sabá, e a longa e ininterrupta série de reis seguintes. Que Hailé Salassiétenha sido ou não um déspota, importa pouco para o movimento, pois sua aceitação criou no espírito do povo o movimento revolucionário, por negar o mito de reis e rainhas brancos e a posição privilegiada da europa. Os Rastafarianos criaram suas próprias canções adaptando os salmos da Bíblica e criando novas músicas religiosas, a partir de suas próprias experiências. Na Jamaica, Os descendentes dos ashantes de Gana, conservaram intacta sua tradição de percussão. Os Rastafarianos deram aoss buros sua nova religião e receberam em troca a percussão africana. Tudo isso aconteceu nas favelas de West Kingston, refúgio dos pobres e repelidos. Origem do reggae. Bob Marley contribuiu enormementepara a aceitação do reggae, sem comprometer sua visão política, mas a sua música transcende Bob Marley e exprime as riquezas espirituais, os anseios e as aspirações profundas do mundo negro por justiça e liberdade. Enquanto o sofrimento for a tônica da vida dos negros, o reggae continuará sendo importante para a condição humana. Eloir Terra Em 1978 Bob Marley vai à África e dá um show conturbado na Etiópia, que àquela altura já não tinha mais o Ras Tafari Selassié no comando do império. Uma revolução o havia deposto e ele acabará morrendo no esquecimento, isso abalou muito Marley, juntamente com as impressões negativas de uma África dominada por tiranias sangrentas. Em 1981, por consequência de um ferimento mal curado, Marley é obrigado a amputar a sua perna para sobreviver, mas ele se recusa, por razões religiosas. Em poucos meses, logo após diagnosticada a doença, Bob Marley morreu de câncer. Após 10 anos de sua morte a reflexão que devemos fazer é de que Marley foi mais do que um cantor para o povo negro do mundo inteiro. Ele precisa ser considerado uma influente força social na luta contra a opressão racial, difundida através de sua música, por justiça e direitos iguais, caso contrário não teria o porquê da medalha especial da paz concedida pela Organização das Nações Unidas. Entre sua discografia podemos destacar os lançamentos Survival, Exodus, Rastaman Vibration e o seminal Catch Afire, que em seu lançamento no Brasil esteve sob ameaça de ser apreendido pelo Depatarmento de Censura da Polícia Federal. A capa, vetada em diversos países, traz o reggamen Marley fumando um cigarro de Ganja, a maconha, planta divina da religião rasta.
